Oficina de Cartazes: Dar cor e voz ao bairro

A Oficina de Cartazes foi a primeira co-criação artística do projeto Cores da Mudança. Reunimos moradores de todas as idades — desde uma menina de 2 anos a uma senhora de 90 — para uma tarde de criação coletiva, onde se misturaram ideias, memórias, desejos e muita cor.

Decidimos sair da Sede dos Leões das Enguardas — onde tinham sido as duas Assembleias Comunitárias — e montar a atividade no exterior, ocupando o espaço público que queremos vir a valorizar. Essa escolha acabou por ser decisiva: apesar de no início apenas algumas crianças estarem presentes, o facto de estarmos na rua despertou a curiosidade de quem passava. Moradores de diferentes idades foram-se aproximando, conversando, e acabaram por se juntar também à criação.

Começámos por explicar o propósito da oficina: criar cartazes com frases que expressam o que os moradores querem ver melhorado ou transformado no bairro. Mostrámos referências visuais — cartazes feitos com fotografia, colagens, tinta e recortes — que colámos nas paredes como fonte de inspiração para quem quisesse explorar diferentes estilos. Também falámos sobre o que é uma identidade visual e como, através desta atividade, podíamos começar a construir juntos a “cara” do projeto.

Uma base de imagens para pintar as ideias

De seguida, convidámos os participantes a explorar um conjunto de fotografias em formato A3 — imagens tiradas por moradores durante a segunda assembleia, em locais do bairro que gostariam de ver melhorados. Algumas pessoas escolheram fotos da sua rua ou do prédio onde vivem. Outras pegaram nas imagens ao acaso, movidas pela curiosidade ou pela estética. Com tintas, lápis, colagens e pincéis, essas fotografias ganharam nova vida.

As fotografias foram impressas em tons de roxo, e os materiais disponíveis eram todos em tons de verde e amarelo — lápis, marcadores, tintas, papéis coloridos, pincéis, tesouras, colas. Algumas pessoas escolheram imagens onde aparecia a sua casa, outras optaram por locais que gostariam de ver mais cuidados. E houve também quem escolhesse simplesmente por instinto, pela cor ou pela memória que a imagem evocava.

A partir daí, cada participante pintou, desenhou ou colou sobre a sua imagem, transformando-a num cartaz pessoal e expressivo.

Frases que fazem pensar

Depois de coloridas, coladas e transformadas, as fotografias ainda precisavam de algo essencial: uma mensagem. Chegava o momento de lhes dar voz.

A partir das frases recolhidas nas assembleias comunitárias, espalhámos sobre a mesa vários escantilhões com letras de diferentes formas e tamanhos, além de marcadores brancos. Convidámos cada participante a escolher uma frase que fizesse sentido para si — ou a criar a sua própria — e a escrevê-la sobre a imagem. Esse gesto, simples e direto, tornou cada cartaz numa afirmação única.

As mensagens que surgiram são tão diversas quanto as pessoas que as escreveram: umas pedem segurança — “Cada passo sua segurança” — outras pedem mais cor e cuidado — “Menos muros cinzentos, mais murais coloridos”. Há frases que sonham alto — “Carrinhos de choque, sim por favor!” — e frases que apontam o essencial — “Aqui podia haver mais vida”.

Cada cartaz é uma janela para o olhar de quem o criou. Falam-nos de um bairro onde se deseja brincar com liberdade, caminhar sem medo, encontrar sombra nos dias quentes, conviver nos jardins e sentir que o espaço público pertence a todos. São frases que fazem pensar — sobre o que falta, o que se pode mudar, e como cada pessoa, com as suas palavras e a sua criatividade, pode contribuir para transformar o lugar onde vive.

Resultados Finais

Cada cartaz criado nesta oficina é mais do que uma obra visual — é uma mensagem, um desejo, uma proposta de transformação. Através de colagens, desenhos e frases, os moradores do Bairro das Enguardas deram corpo às suas ideias sobre o espaço público: o que está em falta, o que gostariam de ver, o que sonham para o lugar onde vivem.

As fotografias de base, tiradas pelos próprios moradores durante uma caminhada de diagnóstico pelo bairro, serviram de ponto de partida. Foram impressas em tons de roxo, conferindo unidade visual ao conjunto, mas a verdadeira cor surgiu das mãos de quem participou. Com materiais simples como tintas, lápis, tesouras e papéis coloridos, cada pessoa pôde transformar o que vê todos os dias em algo novo — mais vibrante, mais cuidado, mais seu.

As frases — como “Cada passo sua segurança”, “Menos muros cinzentos, mais murais coloridos” ou “Carrinhos de choque sim, por favor!” — dizem muito sobre os sentimentos e as aspirações da comunidade. São ao mesmo tempo declarações poéticas e reivindicações diretas, que apontam para a necessidade de mais segurança, mais espaços de brincar, mais arte e mais vida no bairro.

O Bairro como Cenário

Depois de concluídos os cartazes, chegou o momento mais simbólico da oficina: cada participante levou a sua criação até ao local que aparecia na fotografia usada como base — muitas vezes, o lugar onde mora, onde brinca, ou por onde passa todos os dias. Ali, em frente ao cenário real que inspirou a intervenção artística, cada pessoa segurou o seu cartaz para ser fotografada. Estas imagens finais, onde moradores seguram os seus próprios cartazes nos lugares retratados, são agora um registo poderoso da ligação entre identidade, território e desejo de mudança.

Mais do que um exercício criativo, esta foi uma afirmação coletiva de presença. Porque o direito à cidade também se constrói com palavras, imagens e coragem para sonhar.