No dia 8 de março, voltámos a reunir-nos para mais uma Assembleia Comunitária do projeto Cores da Mudança, desta vez com uma proposta diferente: sair para a rua e olhar com atenção os espaços do bairro.

Começámos com uma breve dinâmica de apresentação, na Sede dos Leões das Enguardas, que criou um ambiente descontraído entre crianças, adultos e idosos. Houve palavras e gestos partilhados sobre quem somos e o que nos liga a este lugar. Recordámos o que foi discutido na primeira assembleia e voltámos ao tema central do projeto: o espaço público — o que é, para que serve e o que gostaríamos que fosse.

Caminhar para ver com outros olhos

Saímos em pequenos grupos, com telemóveis na mão, para fotografar espaços do bairro que merecem ser melhor cuidados, usados ou transformados. Cada pessoa olhou o bairro com o seu olhar, registando ruas esquecidas, muros cinzentos, escadas sem função, zonas verdes pouco aproveitadas. A caminhada trouxe também conversas espontâneas com vizinhos e até alguma surpresa — algumas participantes pensavam que seriam mal recebidas em certas zonas, mas sentiram-se bem acolhidas.

Nesta assembleia, a proposta foi simples, mas poderosa: sair à rua e olhar o bairro com atenção. Acompanhados por facilitadoras e com telemóveis na mão — próprios ou emprestados — os participantes percorreram as ruas das Enguardas em pequenos grupos, com o objetivo de fotografar espaços do bairro que gostariam de ver melhorados ou transformados.

Partimos da Sede dos Leões das Enguardas e seguimos pelos jardins entre os prédios da Segurança Social, onde se notou a diferença entre edifícios com portas e outros expostos. Passámos por baixo de um dos prédios e encontrámos churrasqueiras guardadas junto às entradas e caixas de correio partidas, sinais claros de desuso e negligência.

Ao subir as escadas em direção ao sapateiro, destacava-se um banco de jardim virado ao contrário e, mesmo à frente, madeira chamuscada num jardim — indício de uma fogueira recente. Pelo caminho, era difícil ignorar o lixo acumulado, o estado das caixas de eletricidade — muitas sem tampa — e a sensação de que certos espaços são usados mas não cuidados.

Seguimos em direção aos blocos I, J e L, zona muitas vezes referida pelos moradores como o “verdadeiro bairro”. Ali, observámos vários usos informais do espaço público: churrascos improvisados, estendais de roupa nas varandas e nos jardins, zonas verdes que mostram vida, mas também abandono. Comentou-se como esses espaços verdes poderiam ser mais cuidados e transformados em locais de convívio para todos.

Ao mesmo tempo, falou-se de questões mais difíceis — a presença do tráfico de droga em algumas áreas e a tristeza que isso gera nos moradores, sobretudo os mais velhos, que recordam um tempo mais tranquilo e pacífico. O desejo de recuperar a vivência comunitária e devolver dignidade ao espaço público foi um tema recorrente nas conversas ao longo do percurso.

No final do bairro, já na Travessa dos Congregados, as crianças brincaram no “monte” de relva, subindo e descendo como se fosse um parque improvisado. Apontaram, com entusiasmo, uma casa abandonada onde, segundo elas, “mora uma bruxa muito má” — imaginário e realidade a misturarem-se numa vivência muito própria do espaço.

De volta à sede

Depois da caminhada pelo bairro, regressámos à Sede dos Leões das Enguardas para dar continuidade ao trabalho coletivo. As fotografias tiradas durante o percurso foram impressas numa impressora térmica portátil, e cada pessoa foi convidada a colá-las no local correspondente num mapa em grande escala do bairro.

Enquanto colavam as imagens, os participantes foram partilhando o motivo por trás de cada fotografia — o que as levou a registar aquele lugar, o que ali viram, sentiram ou aprenderam ao longo do passeio. O mapa foi-se preenchendo com histórias, memórias, preocupações e propostas. Além das fotos, os participantes também puderam escrever ou desenhar diretamente sobre o mapa, indicando ideias para melhorar os espaços representados.

Nesta fase da atividade, muitos dos adultos que tinham participado na caminhada já se tinham dispersado. O que se seguiu foi um momento marcado pela voz das crianças, que se envolveram com entusiasmo e criatividade. As suas ideias deram ao mapa um tom sonhador e cheio de imaginação: castelos, parques infantis, carrinhos de choque, paredes de escalada e outros desejos para um bairro mais divertido e acolhedor.

Entre todas as sugestões, houve temas que se repetiram e que vieram também das observações dos adultos: a quantidade de lixo no espaço público, tanto de resíduos domésticos como de eletrodomésticos abandonados; o estado das tampas das caixas de eletricidade, que se encontram partidas ou em falta; e os jardins mal cuidados, com poda agressiva, pouca vegetação e falta de cor.

Preparação para a ação

A segunda assembleia foi um momento essencial de escuta, observação e partilha — mas também um passo claro em direção à ação. As fotografias tiradas pelos participantes e todas as ideias recolhidas durante o mapeamento coletivo servirão agora de base para a primeira co-criação artística com a comunidade: a Oficina de Cartazes.

Nesta oficina, marcada para o dia 5 de abril, os moradores serão convidados a usar as imagens que captaram para desenhar, colar, cortar, pintar e escrever sobre elas. O objetivo? Criar cartazes com mensagens e reivindicações para melhorar o espaço público do Bairro das Enguardas.

Frases como “Aqui podia haver um parque”, “Menos lixo, mais cor” ou “Este muro quer ser arte” serão transformadas em cartazes visíveis, feitos com as mãos e as ideias de quem vive o bairro. Esta atividade marca o início de uma série de intervenções criativas no território, onde o espaço é reimaginado e reclamado coletivamente — com voz, cor e presença.

A transformação começa aqui. E começa com todos.