No dia 25 de janeiro de 2025, aconteceu a primeira Assembleia Comunitária do projeto Cores da Mudança, na sede dos Leões das Enguardas. Esta atividade deu início ao envolvimento direto da comunidade no desenho do projeto e juntou diferentes gerações de moradores para pensar, em conjunto, o bairro onde vivem.

Depois das boas-vindas e de uma breve apresentação do projeto, iniciámos dinâmicas de grupo para criar um ambiente acolhedor e descontraído. Seguiu-se uma conversa aberta em torno de uma pergunta simples: “O que vos vem à cabeça quando se fala em espaço público?”

“O espaço público, para mim, são áreas, acessíveis ou que são restrições, destinadas ao convívio e ao lazer, mas com a responsabilidade do domínio público de as conservar. Isto são jardins, as ruas, as pracetas, pois entendo que há outros, edifícios domínio público, como é o caso das escolas, dos museus, que essas já podem ser criadas restrições e impôr algumas regras.”

As respostas foram muitas e variadas — umas mais práticas, outras mais simbólicas. Para alguns, espaço público é simplesmente “onde todos passam”, “onde há pessoas”, “onde há movimento”. Para outros, é um lugar de convívio, de liberdade, de lazer, de expressão — “onde se pode estar com os outros”, “onde se pode brincar ou conversar sem ser preciso pagar”. Houve quem destacasse o espaço público como algo que deve ser seguro e bem cuidado, mas também como um lugar onde é preciso haver respeito entre as pessoas. Houve ainda quem defendesse que o espaço público deveria ser mais “nosso”, mais próximo, mais usado — não apenas um lugar de passagem, mas um espaço de encontro.

Mapeamento Individual

Para dar continuidade à conversa, cada participante recebeu um mapa em papel do bairro e foi convidado a assinalar os espaços que considera importantes, problemáticos ou com potencial de transformação. Usando autocolantes coloridos, marcaram zonas do bairro segundo diferentes critérios. A atividade gerou conversa entre os participantes e algumas dúvidas, sobretudo relacionadas com a orientação no mapa e o significado das cores. As facilitadoras estiveram presentes para apoiar este momento, ajudando a localizar pontos no bairro, a interpretar o mapa e a tornar a experiência acessível a todos. Apesar dos desafios, este momento permitiu que cada pessoa construísse a sua própria leitura do bairro — partilhada com o grupo de forma informal e colaborativa.

Mais tarde, os mapas foram colocados lado a lado no chão, e serviram de base para o mapeamento coletivo. Juntos, olhámos para os padrões que se repetiam — zonas mencionadas por várias pessoas, preocupações comuns, desejos que convergiam. A partir dessas observações, iniciou-se uma conversa sobre as prioridades do bairro: onde agir, como melhorar e o que sonhar para os espaços públicos das Enguardas.

Mapeamento Coletivo

Depois do exercício individual com mapas, os participantes foram convidados a conversar em grupo sobre o que tinham assinalado. Com expostos no chão e visíveis para todos, iniciou-se uma troca rica de observações, memórias e preocupações. Esta conversa ajudou a identificar zonas importantes do bairro — tanto pelos desafios como pelas possibilidades.

Os espaços considerados inseguros destacaram-se rapidamente: o túnel do bairro foi unanimemente descrito como um local a evitar, sobretudo à noite. Um morador comentou: “o sítio mais inseguro é mesmo no meio do bairro”. A Luna reforçou que “o bairro muda de dia para noite”, apontando que a sensação de segurança se transforma após as 23h.

Os espaços considerados inseguros destacaram-se rapidamente. O túnel que atravessa o bairro foi várias vezes referido como um local a evitar, principalmente à noite. A ruela de terra que liga ao cemitério e o caminho na Travessa dos Congregados também foram referidos como áreas problemáticas. A insegurança foi também associada a uma mudança de ambiente consoante o horário: depois das 23h, o bairro é percecionado como mais perigoso e menos acolhedor.

“Aquele caminho de terra na Travessa dos Congregados é muito perigoso, principalmente à noite. Aquilo fica às escuras, não tem luz nenhuma, e a gente sabe que ali acontecem coisas… não é sítio para passar sozinho, muito menos à noite!”

Quando questionados sobre os espaços bem aproveitados ou agradáveis, muitos participantes afirmaram que, atualmente, poucos ou nenhuns locais oferecem essa sensação. A perceção geral é a de que falta cuidado, estrutura e conforto no espaço público.

Ainda assim, surgiram algumas referências a espaços de encontro social, como as esplanadas dos cafés e zonas verdes entre os prédios da Segurança Social, onde alguns bancos de pedra ainda são utilizados por moradores para descansar ou conversar, especialmente em dias de sol. Algumas memórias de infância também surgiram, recordando os tempos em que se brincava nesses mesmos espaços — hoje desvalorizados ou usados para outros fins.

Foi salientada a falta de espaços seguros e pensados para as crianças, um tema que uniu várias opiniões. A ausência de locais de brincadeira foi identificada como um problema central, refletindo a necessidade de repensar o bairro para incluir todas as gerações.

Relativamente aos espaços artísticos ou culturais, destacou-se a Sede dos Leões das Enguardas, não tanto pelos murais pintados no exterior, mas pela programação e atividades que ali acontecem. Para muitos, é um dos poucos espaços vivos e com sentido de comunidade.

Sobre os lugares com valor emocional, alguns participantes assinalaram locais de importância pessoal — como o cemitério ou recantos ligados a memórias afetivas. No entanto, surgiu um debate sobre a capela do bairro: por que razão não foi destacada como um espaço emocional? A conversa revelou sentimentos distintos — enquanto uns veem a capela como um espaço naturalmente aberto a todos, outros sentem que há uma separação invisível, marcada pela falta de convite ou inclusão em determinadas celebrações.

Este momento de mapeamento coletivo encerrou com uma apresentação geral do projeto e um convite à participação contínua. Para além de identificar locais físicos, a sessão permitiu revelar afetos, experiências e desigualdades — traços fundamentais para construir intervenções mais justas e representativas ao longo do projeto. A atividade terminou com um lanche onde se continuaram a partilhar alguns pensamentos sobre o bairro e o seu futuro.