A co-criação de crochet foi o primeiro gesto artístico coletivo do projeto Cores da Mudança, e rapidamente se tornou num dos momentos mais marcantes desta fase inicial. A ideia era simples: reunir pessoas de diferentes idades e origens para criar, em conjunto, uma peça de yarn bombing — uma intervenção em crochet para o espaço público.

Durante seis semanas, todas as quartas-feiras à tarde, o mesmo banco em frente ao CATL transformou-se num ateliê ao ar livre. Ali, entre novelos de lã e conversas cruzadas, foi-se tecendo muito mais do que uma obra: teceram-se histórias, amizades e cumplicidades entre vizinhas que até então mal se conheciam.

Desafios e persistência

Nem sempre foi fácil manter a regularidade dos participantes. Houve senhoras muito empenhadas, que voltaram todas as semanas, mas também quem aparecesse apenas uma vez ou quem desse “desculpas” para não vir. A equipa percorria o bairro, batendo a portas e convidando pessoalmente as pessoas — e, mesmo assim, havia dias em que o grupo começava pequeno e crescia apenas ao longo da tarde.

Apesar disso, as conversas, a curiosidade e a partilha de saberes mantiveram o fio da atividade vivo. A professora Arminda, com paciência e entusiasmo, ensinou ponto a ponto as menos experientes, enquanto outras senhoras iam criando formas e texturas à sua maneira. No final, reunimos 22 quadrados de crochet, todos diferentes, todos feitos com dedicação.

Um coração para o bairro

Com as peças prontas, surgiu — por sugestão de uma das participantes — a ideia de unir os quadrados num grande coração, símbolo de união e afeto. Escolhemos a rede do campo de futebol para o instalar temporariamente, como forma de celebrar o trabalho coletivo e chamar atenção para aquele espaço tantas vezes esquecido.

No entanto, várias moradoras expressaram o receio de que a peça fosse vandalizada ou roubada. Decidimos, por respeito à sua experiência e ao cuidado investido, retirar a instalação após o Convívio Comunitário de julho, e guardar o coração para futuras exposições do projeto. Assim, esta primeira co-criação tornou-se também uma reflexão sobre o medo, a proteção e o valor simbólico do espaço público — temas centrais no Cores da Mudança.

Um novo ritmo no bairro

Estas quartas-feiras de verão deixaram uma marca nas Enguardas. Era visível como o espaço se transformava: senhoras a crochetar, crianças a brincar com tecidos, outras a pintar ou simplesmente a conversar. O som das conversas misturava-se com o riso e o barulho das bolas — e o espaço público, antes vazio, enchia-se de vida.

Mais do que uma intervenção artística, esta co-criação foi um exercício de convivência: juntou pessoas de diferentes idades, histórias e etnias em torno de um gesto comum. E mostrou-nos que, quando há tempo, cuidado e vontade, o bairro pode mesmo ganhar novas cores.