Contexto e planeamento
Esta co-criação surgiu da escuta atenta às necessidades da comunidade das Enguardas. Durante as Assembleias Comunitárias e conversas informais, foi identificado um problema recorrente: o caminho entre a Travessa dos Congregados e a Rua dos Congregados era inseguro, escorregadio no inverno, cheio de lixo e inacessível para pessoas com carrinho de bebé ou mobilidade reduzida. Era um “caminho feito a pés” — usado por todos, mas cuidado por ninguém.
A equipa do projeto levou estas preocupações à Câmara Municipal de Braga, que reconheceu a importância deste trajeto e decidiu oficializá-lo, transformando-o num caminho de terra batida. Esta pequena vitória coletiva tornou a passagem mais segura e digna, e reforçou a ideia de que a participação comunitária pode gerar mudanças concretas.
A partir daí, surgiu a vontade de valorizar esse percurso: torná-lo mais bonito, mais cuidado, mais acolhedor. A co-criação de mobiliário urbano foi então pensada como uma forma de transformar esse espaço com as mãos da comunidade — através da construção de canteiros para flores e plantas aromáticas.
Inicialmente discutiram-se outras possibilidades, como bancos ou churrasqueiras, mas essas ideias geraram preocupação por parte dos moradores: receava-se que atraíssem ruído e uso indevido durante a noite. Foi consensual a escolha de uma intervenção mais leve e simbólica — que trouxesse cor e cuidado, sem causar perturbação.



Desenvolvimento da atividade
Apesar de todo o esforço de mobilização — nos contactos pessoais, nas assembleias, nos convites porta a porta — das cinco pessoas inscritas, apenas uma participou de facto nas sessões iniciais da co-criação. Essa realidade forçou-nos a uma reformulação imediata do plano de ação, ajustada ao que estava vivo no momento.
Não foi um sinal para desistir, mas sim um ponto de viragem. Em vez de insistir num formato rígido e pré-definido, passámos a olhar para o que havia naquele momento: crianças interessadas, curiosidade espontânea, vizinhos observando o desenrolar da atividade. Então decidimos abrir a oficina ao bairro — adaptá-la para um público diverso, com ritmos diferentes, disponibilidades variadas.


Essa mudança implicou redirecionar a energia: enquanto o maker construía as estruturas mais complexas, as crianças eram convidadas a participar nas etapas seguras — escavar, transportar terra, plantar — sempre com supervisão. Em vez de impor o plano, permitimos que a atividade se moldasse ao território e às pessoas presentes.
Foi nessa adaptação que o caráter comunitário ganhou um novo corpo. Esse gesto — passar de um atelier de adultos para uma oficina para crianças improvisada — revela uma das tensões centrais do Cores da Mudança: a passagem do “pensado para” ao “feito com”. Torna o projeto bem mais desafiados, mas com uma forma comunitária ainda mais poderosa.
Sexta-feira, 10 de outubro
Iniciámos a atividade na sexta às 17h com uma explicação sobre o projeto, o processo de decisão e o que seria construído. Estiveram presentes a única participante inscrita, elementos da equipa e algumas crianças que se aproximaram com curiosidade.
De seguida, foi feita uma limpeza intensiva do espaço, recolhendo oito sacos de lixo. Esta ação envolveu moradores e marcou simbolicamente o início de uma nova fase para aquele caminho. Depois, foi feita a marcação no chão dos locais dos canteiros.



Sábado, 11 de outubro
Nenhum dos outros inscritos compareceu, mas assim que a equipa chegou com os materiais, três crianças ofereceram ajuda. Em pouco tempo, eram mais de 16 crianças envolvidas.
O plano original, pensado para adultos, foi adaptado com criatividade e cuidado. O formador Nuno Vitorino assumiu as tarefas mais exigentes, garantindo segurança. As crianças participaram ativamente: escavaram terra, removeram relva, transportaram materiais e ajudaram a plantar.
Foram construídos seis canteiros de madeira (2,4m x 0,35m), preenchidos com plantas resistentes e perenes, como alecrim, coprosma, entre outras.






Inicialmente estavam planeadas 12 estacas verticais com vasos suspensos e bandeirolas, mas após testar a primeira, percebeu-se que o solo era instável. Temendo possíveis acidentes, e após testemunhar comportamentos de risco de algumas crianças (como tentar derrubar uma árvore), decidiu-se não avançar com essa parte da instalação.
Conclusão
Apesar de não ter decorrido como planeado, esta co-criação foi significativa. Teve início num processo de escuta nas Assembleias Comunitárias, resultou numa vitória coletiva junto da autarquia e culminou numa ação prática com o envolvimento espontâneo de novas gerações.
O caminho está mais limpo, florido e cuidado — e esperamos que esta intervenção ajude a cultivar um sentimento de pertença e de responsabilidade partilhada pelo espaço comum. Nos meses seguintes vamos continuar este trabalho de responsabilidade partilhada com mais algumas atividades neste jardim, antes de nos voltamos para outra zona do bairro. Esperamos ver a crescer estas plantas e que façam florir novos caminhos no Bairro das Enguardas.



